porque insistes em afagar, com essa languidez toda no olhar, o rosto frio da verdade contida e mentira amestrada? porque insistes tu, diz-me, em crer no que sabes não existir. no que pensas não existir mas que num qualquer recanto de alma esperas que te surpreenda um dia, ao virar duma esquina, que te faça ‘boooh!’ e te assuste e alegre simultaneamente.
sim, tu aí.
porque insistes tu?
não sabes já que o teu calor não é transmissível? não tens já como adquirido que um abraço não transmite por osmose aquilo que trazes dentro e que desastradamente deixas transbordar em cada toque, com aquela firmeza insegura de quem ama? sabes decerto que não passam de ensejos levianos, de vontades inconcretizáveis de viver algo grande e espesso, que te envolva, que te guarde, que te dê um meio para dares: dares tudo de ti. dares tudo, porque sim. porque confias cegamente no ladrão e não desdenhas o seu ímpeto de roubar. de te roubar. um pedaço de ti. dado não é roubado – tens quota parte de culpa. para não dizer culpa inteira, pois isso seria insultar-te.
tu, sim, tu. não desvies o olhar.
sua idiota.
precisas de insultos? eu insulto-te, pois bem. insulto-te com a verdade, que é como os insultos mais doem. insulto a tua inteligência constatando que apesar de todo o conhecimento empírico que tens do mundo continuas a crer na terra-do-nunca – não és criança, isso já passou, se não o aproveitaste paciência. agora és adulta, enfrenta a realidade – there’s no such thing as neverland. insulto a tua esperteza dizendo-te que fazes o errado tendo consciência que é errado, sabendo que és tu quem vai pagar pelo erro, mas fazes. continuas a achar sem sombra de dúvida que depende sempre da perspectiva, que tu não o consideras erro, que tens fé de que não será. mas é. e tu confias. burra.
vai dormir, oh incauta.
que o teu mal é sono. vê se descansas essa cabeça, vê se a enches e organizas de forma funcional. tira lá o ‘self-destruction mode’ e vê se atinas.
aperceberes-te pela enésima vez de que o mundo é merda não te dá o direito de o encarar como uma fatalidade angustiante. já viste esse filme. é comer e andar. deixa-te de merdas.
manda-o à merda.

1 B.tytes:
é bom falar. ele é um grande asno, isso sim. xx
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